As monjas hospitalárias recriam a Ordem militar e religiosa S. João do Hospital, de Jerusalém ou Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, criada em meados do séc. XI (1048) por um grupo de comerciantes oriundos de Amalfi (Itália), que mantinha boas relações comerciais com o Próximo Oriente, tendo sido autorizado a fundar uma casa, na cidade de Jerusalém. A Ordem surgiu em função das ameaças muçulmanas que os cristãos sofriam em suas jornadas de fé á Terra Santa, fazendo uma longa viagem a pé, chegando ao destino esgotados pelo cansaço, fomes e febres. No meio do caminho, os fiéis eram atacados, saqueados, feridos e até assassinados pelos islâmicos. Para oferecer proteção, os Hospitalários prestavam serviços médicos aos cristãos.

 Esta comunidade caritativa foi instituída sob a Regra de S. Bento e sobre dependência do Mosteiro de Sta. Maria Latina, tendo crescido em funcionalidade, passando a contar com um hospital. Em 1113, a congregação foi reconhecida pelo papa e passou a operar sob regra própria, constituída por 19 capítulos, inspirada na Regra de Sto. Agostinho. O papa, desde logo, beneficiou a nova Congregação, favorecendo a sua autonomia mediante a concessão de privilégios e isenções, bem como pela confirmação de todas as doações recebidas até então, constituindo, assim, a fundação da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários.

 No ano de 1120, Raimundo de Puy, o primeiro a intitular-se Mestre da Ordem, traçou um novo destino a esta comunidade, acrescentando aos compromissos assistenciais o serviço militar, primeiro para proteger os peregrinos dos ataques dos sarracenos e bandos armados e depois para defender, pelas armas, os lugares santos e dar apoio aos Cruzados. Criando, sob o estandarte da Fé de Cristo, uma instituição religioso-militar, síntese do sentir e dos ideais dos homens de então: a prática da caridade e a defesa da Fé. A luta em nome de Cristo é um ideal que justifica a guerra, que assim é justa, de acordo com o pensamento de Sto. Agostinho.

A Ordem estava organizada em sete (mais tarde oito) circunscrições territoriais e administrativas, cada uma delas composta por um ou vários priorados. Esta organização responde perante um Grão-Mestre, que dependia espiritualmente (ele e a Ordem) do Sumo Pontífice. Todas as Casas reproduziam regionalmente a Casa-mãe, em cada uma das nações e em cada um dos priorados, onde a vivência dos Hospitalários era regida por um conjunto de normas, que regulavam não só a conduta dos elementos, mas ainda o funcionamento orgânico da Ordem, a administração e gestão do seu vasto património.

Os Hospitalários, constituindo um todo, em que todos professavam os três votos religiosos de obediência, castidade e pobreza, com uma ação preponderante no domínio da assistência e defesa da Fé de Cristo, constituíam-se em: Freires Cavaleiros, elementos de escola recrutados na nobreza, que podiam ser Comendadores, Bailios e Priores; os Capelães Conventuais, religiosos de ordens sacras, e os Serventes de Armas ou Sargentos. Cada freire, qualquer que fosse o convento e qualquer que fosse a língua, sabia sempre qual o seu lugar na hierarquia e qual a função que lhe cabia. Entre os freires cavaleiros eram recrutadas as chefias militares e de governo. Em segundo plano estavam todos os homens dos ofícios que, dado o carácter e a atuação dos Hospitalários, abrangia um leque amplo e variado. Finalmente, estavam todos os homens leigos, que serviam a Ordem, nomeadamente nos trabalhos agrícolas.

 A Ordem do Hospital integrava também nas suas fileiras mulheres. Segundo testemunhas presentes na Segunda Cruzada, homens e mulheres serviram no hospital da Ordem. Em 1104 uma mulher fundou, em Jerusalém, um hospício, anexo ao hospital, para receber mulheres devotas à Fé de Cristo. O recrutamento dos elementos femininos obedecia a critérios particulares de cada casa. Tal como no ramo masculino, as Hospitalárias estavam divididas em diversos grupos: Professas, Conversas e Donatas.

As mulheres hospitaleiras eram principalmente mulheres nobres de famílias aristocráticas ou poderosas que, em muitos casos, eram forçadas a se unir à Ordem por suas famílias para obter benefícios espirituais - a bênção da Ordem para a família. Mas nem todas as mulheres tinham que ser ricas para se tornarem irmãs, embora isso fosse uma vantagem. Muitas vezes há evidências de que mulheres de todas as esferas da vida seriam admitidas nas Casas, independentemente de sua situação financeira, mas sim por causa de suas habilidades que poderiam ter correspondido às necessidades práticas de Casas específicas. Vale a pena mencionar ainda, que fontes árabes muitas vezes contradizem as ocidentais em termos do status presumivelmente não combatente das mulheres em expedições religiosas. Sabemos, no entanto, que estavam definitivamente presentes e operando em estreita proximidade com a Guerra Santa.

Desconhece-se a data precisa da entrada dos Hospitalários no território que é hoje Portugal, onde encontraram terreno fértil para a sua atuação. Contudo aponta-se o ano de 1128 como data provável. A importância e a expansão da Ordem são confirmadas pela carta de couto outorgada por D. Afonso Henriques em 1140. A Ordem do Hospital, durante toda a primeira dinastia, esteve ao lado dos nossos reis na conquista e povoamento do território, recebendo muitas terras e privilégios por doação régia.